Por Guiomar Vidor – Presidente da FECOSUL e vice-presidente da CNTC
O fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução salarial, representam muito mais do que uma conquista para milhões de trabalhadores brasileiros. São também uma oportunidade concreta de modernização das relações de trabalho, aumento da produtividade, geração de empregos e fortalecimento do próprio comércio. Uma mudança capaz de beneficiar trabalhadores, empresas e toda a economia.
O comércio está entre os setores que mais sentirão os efeitos positivos dessa transformação. Segundo dados do DIEESE, dos 10,5 milhões de trabalhadores formais do comércio varejista e atacadista, 92,4% cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Nos supermercados e hipermercados, esse percentual chega a 92,7%, enquanto nas lojas de vestuário alcança 90,5%. São milhões de profissionais que passarão a contar com mais tempo para descansar, cuidar da saúde, conviver com a família, estudar e aproveitar a vida.
A Emenda Constitucional nº 141/2026 estabelece uma transição gradual: a partir de 16 de dezembro de 2026, a jornada máxima será reduzida de 44 para 42 horas semanais, chegando às 40 horas em dezembro de 2027. Já na primeira etapa, os trabalhadores abrangidos terão direito a dois dias de descanso remunerado por semana, com a implantação da escala 5×2. Tudo isso sem redução salarial, o que significa também uma valorização de até 10% da hora trabalhada ao final da transição.
Mais qualidade de vida, saúde e valorização do trabalho
Um dos principais benefícios dessa conquista será a melhoria das condições de vida e de trabalho. O comércio é uma categoria formada majoritariamente por mulheres, muitas das quais enfrentam uma dupla jornada, conciliando o emprego com os cuidados da casa e da família. Para essas trabalhadoras, assim como para milhões de jovens, a conquista de mais um dia de descanso semanal representa uma mudança significativa na organização da vida.
Os efeitos positivos também poderão ser sentidos na saúde. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, analisados pelo DIEESE, mostram que, no Rio Grande do Sul, os supermercados e hipermercados são o segundo setor econômico com maior participação nos afastamentos por transtornos mentais, respondendo por 6,34% dos casos. Somados aos segmentos de farmácias, vestuário e combustíveis, o comércio varejista concentra 12,38% desses afastamentos no estado, superando inclusive o setor hospitalar.
A redução da jornada e a ampliação do descanso poderão contribuir para diminuir o esgotamento físico e mental, prevenir doenças, reduzir afastamentos e melhorar o ambiente de trabalho. São benefícios que se refletem diretamente na qualidade de vida dos trabalhadores, mas também na redução de custos para as empresas e para a Previdência Social.
Menos rotatividade e mais produtividade para as empresas
Outro resultado esperado é a redução da elevada rotatividade de mão de obra, um dos problemas estruturais do comércio brasileiro. O estudo do DIEESE demonstra que jornadas mais extensas e baixos salários estão associados a maiores índices de desligamento voluntário. Entre trabalhadores que cumprem jornadas de 41 a 44 horas e recebem de um a dois salários mínimos, 36% dos desligamentos são a pedido do empregado. Entre aqueles com remuneração superior a dois salários mínimos, submetidos à mesma jornada, esse percentual cai para 23%.
A jornada 5×2 tende a tornar o setor mais atrativo, especialmente para os jovens, contribuindo para a permanência dos profissionais nas empresas. Isso significa menos despesas com rescisões, recrutamento e treinamento, além de equipes mais experientes, motivadas e produtivas.
Aliás, os próprios números do comércio demonstram que existe espaço econômico para essa mudança. Entre 2022 e 2023, descontada a inflação, o faturamento por trabalhador cresceu 3,17% no comércio varejista e 1,33% nos supermercados e hipermercados. São ganhos de produtividade que evidenciam a capacidade do setor de produzir mais riqueza com o trabalho de seus empregados.
É justo, portanto, que parte dos benefícios da modernização tecnológica e dos ganhos de produtividade também seja compartilhada com os trabalhadores, na forma de melhores salários, jornadas menores e mais qualidade de vida.
O custo da redução da jornada é pequeno diante dos benefícios
Um dos argumentos utilizados para questionar a redução da jornada é o possível aumento dos custos empresariais. Entretanto, os estudos demonstram que esse impacto é relativamente pequeno quando comparado ao faturamento do setor.
Segundo simulação do DIEESE, baseada na Pesquisa Anual do Comércio do IBGE, a redução da jornada de 44 para 42 horas representaria um acréscimo estimado de apenas 0,47% sobre o faturamento do comércio varejista. Com a jornada de 40 horas, esse impacto chegaria a 0,98%. Nos supermercados e hipermercados, seria ainda menor: 0,39% na primeira etapa e 0,81% ao final da transição.
Essas estimativas sequer consideram os ganhos decorrentes da redução da rotatividade, da diminuição dos afastamentos e da melhoria da produtividade, fatores que poderão compensar parte dos custos adicionais.
Outro estudo, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também aponta que o impacto direto da redução da jornada sobre os custos operacionais de grandes setores, como a indústria e o comércio, seria inferior a 1%.
É evidente que existem diferenças entre grandes redes e pequenos estabelecimentos, exigindo atenção às particularidades de cada segmento. Entretanto, os números demonstram que a transição gradual oferece condições para a reorganização das escalas e a adaptação das empresas, sem comprometer necessariamente sua competitividade.
Mais empregos, mais consumo e mais movimento no comércio
A redução da jornada também abre perspectivas importantes para a geração de empregos. Com a necessidade de reorganizar escalas e manter o atendimento aos consumidores, as empresas poderão ampliar suas equipes, criando novas oportunidades de trabalho. Estimativas consideradas no debate setorial apontam um potencial de mais de 600 mil novos empregos no comércio, dependendo das condições de implementação da medida.
Mas existe outro benefício econômico igualmente importante: milhões de trabalhadores passarão a dispor de mais tempo livre, mantendo sua remuneração. E trabalhadores também são consumidores.
A redução da jornada beneficiará aproximadamente 26,8 milhões de trabalhadores brasileiros, dos quais 1,95 milhão no Rio Grande do Sul, considerando todos os setores econômicos. São milhões de pessoas que terão melhores condições para frequentar o comércio, viajar, utilizar serviços, ir a restaurantes, participar de atividades culturais e de lazer e movimentar a economia de suas cidades.
Esse aumento do tempo disponível para o consumo poderá fortalecer especialmente o comércio presencial, além de estimular o turismo, a gastronomia e os serviços. Em outras palavras, parte dos investimentos necessários à reorganização das jornadas poderá retornar às próprias empresas na forma de maior movimento e novas oportunidades de negócios.
Uma conquista que pode beneficiar toda a sociedade
O fim da escala 6×1 inaugura uma nova perspectiva para o comércio brasileiro. Ao mesmo tempo em que melhora a qualidade de vida dos trabalhadores, cria condições para reduzir o adoecimento, diminuir a rotatividade, ampliar a produtividade, gerar empregos e estimular o consumo.
É uma mudança que precisa ser compreendida não apenas como um avanço nas relações de trabalho, mas também como uma oportunidade de desenvolvimento econômico e social.
O comércio brasileiro modernizou seus processos, incorporou novas tecnologias e ampliou sua capacidade de produzir riquezas. Chegou o momento de fazer com que esses avanços também se traduzam em melhores condições de vida para os milhões de trabalhadores que sustentam diariamente o setor.
Afinal, uma economia forte não se constrói apenas com empresas que vendem mais, mas também com trabalhadores valorizados, saudáveis, com poder de compra e tempo para viver.
A jornada de 40 horas e a escala 5×2 representam, portanto, uma conquista que ultrapassa os limites das relações trabalhistas. São um passo importante para construir um comércio mais produtivo, uma economia mais dinâmica e uma sociedade com mais qualidade de vida.
Quando o trabalhador ganha mais tempo para viver, toda a sociedade tem a oportunidade de avançar.
