Nas crises econômicas há sempre a tentativa de passar a conta para a classe trabalhadora. O desemprego no país e a crise nos estados e municípios não é resultado daquilo que os trabalhadores defendem. É resultado de uma política econômica, esta sim retrógrada, que considera benefícios, vantagens e alterações na legislação somente ao grande capital, nunca ao trabalho. Não por acaso, estas mudanças sempre vem para retirar direitos, impedir conquistas e diminuir a qualidade de vida de quem trabalha. Se a cada crise econômica, um tanto de direitos é retirado, o que nos sobrará Regrediremos até uma nova escravidão.

Para conter a crise e o desemprego, a proposta do mundo do trabalho é a redução da jornada, sem redução de salários, o que já é realidade em países do chamado primeiro mundo. Em vez de jornadas maiores e menos trabalhadores, jornadas menores e mais trabalhadores empregados. É assim que se criam mais postos de trabalho, sem precarizar os que já existem.

A contrariedade do SindiComerciários Ijuí à proposta de “horário livre” no comércio é decisão da categoria, em assembleia. As trabalhadoras e trabalhadores do comércio não querem trabalhar aos domingos e feriados, muito menos ampliar a sua jornada de trabalho, que já é uma das mais extensas. A Direção do Sindicato, como legítima representante da categoria, tem por obrigação defender a proposta dos trabalhadores.

Apoiamos todo e qualquer investimento que gere emprego e renda, mas não negociamos a diminuição da qualidade de vida da nossa categoria. No nosso entendimento, a criação de novos postos de trabalho não deve estar vinculada a condicionantes que precarizem o trabalho e a condição de quem trabalha, somente para dar mais lucro aos patrões.

A crise não aumentou a renda das pessoas, pelo contrário, a renda diminui. Sem o aumento de renda da população, é comprovado que a abertura de novos investimentos no comércio apenas faz migrar o gasto das famílias, do comércio já estabelecido, para os novos empreendimentos. Logo depois, são diluídas estas receitas entre todo o varejo. O resultado é um cenário de mais crise, somada a isso a precarização do trabalho.

A cidade de Ijuí já é detentora de um comércio economicamente forte, variado, no varejo e no atacado. Qualquer novo investimento, além de considerar a qualidade de vida da classe trabalhadora, deve considerar antes o interesse local, a condição já existente, considerando todas as variáveis e setores para que os empregos e a cadeia econômica que já existe não seja prejudicada. Os pequenos e médios estabelecimentos locais são os verdadeiros geradores de mais e melhores empregos (considerando o índice trabalhador/m2).

Diante do contexto, lamentamos que setores representativos do poder público, de algumas lideranças locais e algumas opiniões pontuais estejam abertamente desconsiderando em primeiro lugar, o amplo debate, envolvendo empresários, trabalhadores, e suas entidades representativas. Em segundo lugar, desconsiderando detalhes e argumentações importantes que são do interesse local. Lamentamos que o debate sobre novos investimento esteja servindo como cortina de fumaça para esconder que a cidade está perdendo aquela que já foi a maior cooperativa da América Latina (Cotrijui) e está prestes a perder uma de suas principais indústrias, muito por falta de ação destes mesmos setores e agentes sociais.

Como fizemos em 2013, quando puxamos uma grande mobilização e o debate diante da crise na Cotrijui, também agora seremos protagonistas do debate, visando antes de mais nada o interesse local. Somos os maiores parceiros para a atração de investimento e para a geração de empregos na cidade. Mas a qualidade de vida do trabalhador não é negociável.