Mesmo com avanços, o racismo mostra que ainda há uma grande distância a ser percorrida para a conquista da igualdade

O dia da Consciência Negra é um dia de luta para dar visibilidade a questão racial, sobretudo para os problemas que negros ainda enfrentam na sociedade brasileira. A data é comemorada em 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, liderança do Quilombo dos Palmares, para simbolizar a luta do negro contra a escravidão.

“Vai na contramão da ideia de que o brasileiro não é racista. Contra aquela ideia de que negros e brancos convivem em harmonia. Achar que não existe racismo é a afirmação do legado de um país que renega a população negra e não quer vê-la incluída como cidadã”, afirma Lúcia Xavier Castro, fundadora do Ong Criola, que atua na defesa e promoção de direitos das mulheres negras.

Debate racial

Nos últimos anos, as pautas do movimento negro estão em evidência, tornando-se reivindicação não só de quem é militante. A tarefa dos movimentos tem sido, justamente, manter o debate racial aceso o tempo todo. No 10º Congresso, em 2016, a Fecosul incluiu no plano de lutas a implementação de políticas públicas para negros e negras comerciários do RS para buscar a igualdade de direitos pelo viés racial.  

Para Caroline Lopes, estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Coletivo Negro Carolina de Jesus, manter o debate aceso é a maior necessidade do movimento porque a violência contra o negro não tem descanso. “Nós temos conquistas cada vez mais sólidas, como a política de ações afirmativas que nos trouxe para dentro da universidade, mas os desafios são ainda maiores. Isso porque as organizações racistas e fascistas estão cada vez mais fortes. Além disso, é importante lembrar que ao mesmo tempo que temos centenas de pessoas negras entrando na universidade, temos um ingresso muito maior no sistema prisional e nos cemitérios”, afirma.

Para lutar contra os números oficiais que ainda colocam os negros entre os que são mais pobres e mais mortos no país, o movimento negro tem se diversificado. Segundo a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Giovana Xavier, nos últimos anos, o movimento se organizou através da juventude negra universitária, coletivos de mulheres negras, ativismo virtual negro, até mesmo a partir dos partidos políticos de esquerda que têm setoriais negros mais fortes. Para ela, o movimento está trabalhando em novas vertentes e assim conseguindo chegar a mais pessoas.

“Hoje, um vocabulário que antes era apenas usado por militantes, está sendo acessado independente da pessoa fazer parte de um movimento social. Dizer empoderar faz sentido para muito mais gente. As velhas pautas estão sendo repensadas com outras roupagens, nesse sentido, precisamos pensar que militância não é só o cara de camisa vermelha que está na rua distribuindo panfletos, há outras formas de atingir ainda mais pessoas”, garante.

Genocídio negro

Esse é um dos episódios que ilustra mais uma conquista da cultura negra. Segundo Lúcia Xavier, é estratégia para fortalecer, mas não significa que será o fim da intolerância. Para ela, a principal conquista dos últimos anos foi a compreensão de que o racismo é um problema da sociedade. “Só a partir dessa compreensão podemos encarar o problema de frente. O movimento negro tem um papel didático nesse sentido, ao reforçar uma agenda política onde sejamos obrigados a colocar a questão do racismo e do genocídio negro em pauta”, explica.

Caroline Lopes acredita que uma vitória complementar a afirmação do racismo é  o reconhecimento do genocídio negro. “Hoje o estado é obrigado a reconhecer que há uma seletividade institucional, policial, social do povo negro, que mata e muito por causa da cor da pele”, acrescenta.

Para a estudante, é importante ressaltar que o movimento negro está ganhando novo fôlego através dos estudantes que ingressaram nas universidades públicas. Um exemplo disso foi a última edição do Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros (EECUN). “Estamos com pessoas produzindo e formulando ciência em várias áreas do conhecimento que retornarão nos próximos anos para a população negra de todo o país a fim de dar conta das demandas que precisam tanto”, conclui.

Com informações do Brasil de Fato