Por Silvana Conti. Foto: Luiza Castro/Sul21

Inicio está breve reflexão reconhecendo o meu lugar de fala e meus privilégios enquanto uma mulher cis, lésbica, que tem a cor da pele branca e portanto nunca sofreu racismo.

Quero destacar as palavras de uma grande feminista negra, que nos aponta a urgência de nestes dias tão tristes, buscarmos formas de potencializarmos as nossas companheiras negras para nos representarem na política, nos movimentos sociais, na direção de sindicatos, empresas, nas associações de bairros, enfim, de erguermos a nossa voz enquanto uma sociedade que luta em defesa da democracia, pela igualdade racial e busca corrigir o crime de leso-humanidade, que foi a escravatura.

Bell Hooks, afirma que: “Esse ato de fala, de “erguer a voz”, não é um mero gesto de palavras vazias: é uma expressão de nossa transição de objeto para sujeito – a voz liberta.”

Nós mulheres e homens não negras(os), temos um compromisso histórico de neste contexto de agudização das desigualdades sociais, e grande expressão do quanto o racismo é cruel, de nos colocarmos como escudo, e fazermos todas e todos a luta antirracista.

Os assassinatos racistas das últimas semanas de Maio/Junho de 2020, que visibilizaram a perda das vidas de Miguel Otávio, aos 5 anos, João Pedro, aos 13, e George Floyd um trabalhador negro que morreu sob o joelho de um policial branco, escancaram que o Brasil tanto quanto os EUA, são países em que a cor da pele determina quem tem mais oportunidades e direitos e quem é mais vulnerável e tem menos chances.

Peço licença para citar a Flávia Oliveira, colunista de Opinião do jornal o Globo quando afirma que: “Foi o racismo estrutural, no qual o Brasil está assentado, que tomou pelas mãos Miguel Otávio Santana da Silva, levou-o até o elevador, apertou o botão de um andar alto, liberou a porta e, indiferente, retornou ao lar. Selou assim o destino ao qual crianças negras estão vinculadas por um projeto desumano e macabro, travestido de fatalidade. Era filho único da empregada doméstica Mirtes Renata. Morreu porque era filho da empregada. Se herdeiro da patroa, estaria vivo.”

A população negra é alvo da morte violenta e sistemática. Todo ano, cerca de 45 mil pessoas negras são assassinadas no Brasil. Infelizmente a maioria das mortes são “invisíveis” e banalizadas para o Estado que principalmente desde 2016 e agora neste período de pandemia através do presidente da república, naturaliza as mortes de mais de 40 mil brasileiros e brasileiras. Portanto a covid -19 mata e o racismo também mata milhões de pessoas negras.

As mulheres negras sempre são o principal alvo

No país em que as mulheres negras compõem a maior parte da população, somando quase 60 milhões de pessoas, o percentual acende uma luz vermelha para a urgência de encararmos e combatermos o racismo estrutural que se manifesta em forma de segregação, silenciamento e violência institucional.

Estamos imersos(as) na necropolítica do matar e deixar morrer. Os serviços públicos de saúde em colapso, uma crise econômica, política, institucional e civilizatória profunda. O Brasil está nas mãos de um presidente genocida, racista, perverso e miliciano.

Embora os homens representem entre 60% e 80% dos mortos pela Covid-19, as mulheres são afetadas de maneira mais severa pelo novo coronavírus. Elas estão mais expostas ao risco de contaminação e às vulnerabilidades sociais decorrentes da pandemia, como desemprego, violência, falta de acesso aos serviços de saúde e aumento da pobreza.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que em 2018, mais de 6,24 milhões de mulheres negras estão no serviço doméstico. Os dados revelam que, mesmo com a implementação da PEC, as domésticas têm uma das piores escalas salariais e a maioria ainda estão na informalidade, sem carteira assinada.

A crise causada pelo coronavírus aprofunda as desigualdades e violência contra as mulheres em todos os países. Além disso, 70% de todos os profissionais da saúde no mundo são mulheres, o que as expõe de maneira direta à Covid-19.

Essa é a conclusão do relatório “Mulheres no centro da luta contra a crise Covid-19”, divulgado no final de março pela ONU Mulheres, entidade da Organização das Nações Unidas para igualdade de gênero e empoderamento.

Em resumo, segundo o estudo, a pandemia afeta mais as mulheres porque:

 70% dos(as) trabalhadores(as) de saúde em todo o mundo são mulheres, fato que as expõe a um maior risco de infecção pelo novo coronavírus;
 com o isolamento, os índices de violência doméstica e feminicídio têm aumentado no mundo – como as mulheres estão confinadas com seus agressores e distantes do ciclo social, riscos para elas são cada vez mais elevados;
 entre os idosos(as), há mais mulheres vivendo sozinhas e com baixos rendimentos;
A ONU Mulheres estima que, dentre a população feminina mundial, as trabalhadoras do setor de saúde, as domésticas e as trabalhadoras do setor informal serão as mais afetadas pelos efeitos da pandemia de coronavírus.
  Mulheres também são maioria em vários setores de empregos informais, como trabalhadores(as) domésticos(as) e cuidadores(as) de idosos(as);
Com a pandemia, mulheres têm de se dividir entre diversas atividades, como as seguintes: emprego fora de casa, trabalhos domésticos, assistência à infância (cuidado com filhos), educação escolar em casa (já que as escolas estão fechadas) e assistência a idosos da família
Antes da Covid-19, mulheres desempenhavam três vezes mais trabalhos não remunerados do que os homens; com o isolamento, a estimativa é que este número triplique;
Mulheres não estão na esfera de poder de decisão na pandemia: elas são apenas 25% dos parlamentares em todo o mundo e menos de 10% dos chefes de Estado ou de Governo;
E, no setor têxtil, um dos mais afetados da indústria em todo mundo e paralisado por causa do trabalho temporário de lojas, as mulheres são três quartos dos trabalhadores no mundo.
De acordo com o documento da ONU, “a pandemia teve e continuará a ter um grande impacto na saúde e no bem-estar de muitos grupos vulneráveis”. O texto prossegue: “As mulheres estão entre as mais afetadas.”
Além do aumento da desigualdades e da violência de gênero já existentes, o relatório alerta para o fato de que as mulheres são maioria na linha de frente contra o coronavírus.

Estes dados demonstram a dura realidade que vivemos e que as pessoas mais afetadas pela covid -19 tem classe, gênero e cor. Nenhuma novidade para a estrutra social do Brasil.

Finalizo está breve reflexão com a palavras do querido professor Silvio Almeida: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista.” Na medida que a população afrodescendente é hoje majoritária no Brasil, a luta contra as discriminações se transforma em fator de consolidação da democracia”.

Silvana Conti é mestranda em Políticas Públicas da UFRGS. Membro do Núcleo de Estudos em Pesquisa em Saúde e Trabalho. Vice-presidenta da CTB-RS.