Homologação Mais de 76 Anos de História - A Federação dos Empregados no Comércio de Bens e Serviços do Estado do Rio Grande do Sul foi fundada em outubro de 1938. Foi um ato de audácia da esquerda metropolitana, desafiando o regime do Estado Novo. Um gesto apontando no rumo da organização de uma categoria de explorados, em qualquer lugar do Brasil, naquele momento, seria algo temerário, aqui mais ainda. Pois o Estado era governado por Flores da Cunha, um anticomunista feroz. Naquele tempo, os sindicatos eram fechados e as lideranças presas, torturadas e deportadas.

Mesmo assim, nove líderes dos comerciários gaúchos, reunidos na sede do Sindicato dos Auxiliares do Comércio de Porto Alegre, fundaram a Federação dos Empregados no Comércio do Rio Grande do Sul. Tendo como líder e primeiro presidente Francisco Massena Vieira. A Federação resistiu bravamente até 1941, quando morreu Massena.

Em 1943, o presidente do então Sindicato dos Empregados do Comércio de Porto Alegre, Darcy Gross, resolveu refundar a Federação dos Empregados no Comércio do Rio Grande do Sul, omitindo o trabalho já feito pelos líderes de 38. A refundação tinha a proteção do Delegado Regional do Trabalho e do governo Getúlio Vargas.

Quem assumiu a presidência da Federação nesta nova fase foi Felipe Marçal Weinmann, que ficou a frente da entidade até 1957. Na eleição de 57, o presidente eleito foi Romeu Pacheco de Abreu, funcionário da Livraria do Globo e presidente do Sindicato dos Comerciários de Porto Alegre. Desde 1956 era dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio.

No golpe militar de 1964, lideranças sindicais gaúchas foram presas, caíram na clandestinidade ou tomaram o caminho do exílio. Os sindicatos, sob intervenção, foram invadidos, devassados, saqueados, e esvaziados de qualquer sentido político ou reivindicatório. Passaram a ser entidades assistencialistas. Neste contexto a Federação dos Comerciários cumpre o papel de entidade a serviço dos donos do poder. O mesmo grupo que estava a frente de Federação volta ao comando do Sindicato dos Comerciários de Porto Alegre de onde tinham saído varridos pelo voto dos trabalhadores.

Somente em 1965, outro dirigente da mesma linhagem conseguiu tirar Pacheco Abreu da presidência. Foi a vez de Boaventura Rangel Monson assumir a Fecosul. Seu mandato durou o tempo da ditadura militar, e teve apoio direto do Terceiro Exército, da DRT e da polícia política.
Nesse período, lutas da categoria nem pensar. Ele ficou na presidência até 1984, quando a Federação deu a virada democrática.

Dirigente Sindical dos Comerciários de Pelotas e participando de forma secundária da Fecosul, José Carlos Schulte liderou um movimento de oposição inscrevendo uma chapa sem a participação de Monson. Era o fim da era Monson e fim da ditadura militar. No entanto, o ex-presidente teve a ousadia de marcar a posse da nova diretoria para o dia 31 de março. Dia do golpe de 64. E no seu pronunciamento provocou fazendo referência a data que, segundo ele, foi a “Revolução Redentora”.

Novos tempos para a Fecosul e para os trabalhadores. A abertura política e a vontade de mudar os rumos do país e da luta dos trabalhadores levaram a nova diretoria da Fecosul a ter um papel participativo e fundamental nas conquistas dos comerciários, e dos demais trabalhadores.

Nos anos 80, a Fecosul participou ativamente das lutas políticas sindicais e sociais no estado e no país. Nestes anos aconteceram muitas greves, paralisações em muitas lojas e supermercados, destacando atividades em Pelotas, Santa Maria, Caxias do Sul e Farroupilha, dentre outras. Foi também nesta década que a Fecosul incentivou a criação de vários sindicatos no interior do Estado. Assim como foi nessa época, que foram alcançadas as maiores conquistas nos dissídios como auxílio creche, qüinqüênio, triênio, leis municipais que garantiam o sábado inglês (trabalho no sábado só até ao meio-dia) e outras garantias mantidas até hoje. A Federação foi uma das principais entidades organizadoras do CET – Congresso Estadual da Classe Trabalhadora.

A Federação ainda teve participação nas manifestações das Diretas Já, e depois apoiando a indicação de Tancredo Neves à presidência da República. E teve papel destacado na luta pela Constituinte de 1988, que garantiu muitos direitos aos trabalhadores e trabalhadoras, e à sociedade. No grande embate nacional entre os neoliberais e setores progressistas no final dos anos 80, a Fecosul marcou posição ao lado de Lula. Mesmo com intensa mobilização popular a favor de Lula, o eleito foi Fernando Collor nas eleições de 1989.

Nos anos 90, A Fecosul foi uma trincheira de luta contra os ataques da política neoliberal implantada pelos governos Fernando Collor e Fernando Henrique. Os comerciários gaúchos estiveram representados no “Fora Collor”.

Em 1997, a Fecosul se posicionou radicalmente, contra a Medida Provisória do governo FHC, que liberou o trabalho aos domingos no comércio em geral. Luta que até hoje a Federação vem travando com grandes mobilizações, tanto nos municípios, como no estado e no país. Sempre buscando apoio de parlamentares que estão do lado dos trabalhadores.

A Fecosul teve participação no Movimento em Defesa do Brasil, da Democracia e do Trabalho, na Marcha dos 100 mil contra o governo FHC, realizada em Brasília.

Desde de seu último mandato a frente da Fecosul, 1999 a 2002, José Carlos Schulte, já atuava mais em Brasília, junto a CNTC – Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio. Neste período a Federação era comandada pelo vice-presidente Guiomar Vidor, que elegeu-se presidente em 2002, 2005 e 2008, sendo o atual presidente.

Nestes anos de virada do século, a luta dos trabalhadores permanecia na resistência pela manutenção dos direitos conquistados, a Fecosul afirma-se cada vez mais como um instrumento de resistência contra a tentativa de retirada de direitos, como a reforma da previdência, reforma sindical e trabalhista que visava a extinção da CLT.

Também no final do século passado e início deste, a Federação teve uma postura marcante contra as cooperativas de trabalho, a disseminação dos estágios – utilizados como forma de precarização dos direitos trabalhistas. Com sua integração com as demais categorias, teve participação ativa na fundação do Fórum Sindical dos Trabalhadores Gaúchos (Fórum das Federações), que é coordenado pela Fecosul.

Outra grande conquista dos trabalhadores gaúchos liderada pela Federação dos Comerciários foi o Piso Regional. Foi dentro da Fecosul que os trabalhadores no governo Olívio Dutra formularam a criação do Piso Regional, como forma de elevar os pisos e de melhorar os salários das categorias que ganhavam menos. Além de ser uma forma de distribuição de renda.

Com a eleição do presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, um líder sindical, mudou o cenário nacional. Muitos avanços foram conquistados no campo democrático, na estabilidade da economia, na valorização do salário mínimo, mas devido a múltiplas pressões, o governo ainda não garantiu a segurança dos direitos trabalhistas e a mudança da política econômica que prioriza os altos juros ao invés do crescimento. Os trabalhadores precisaram continuar na rua, na luta e na resistência para não ver seus direitos serem suprimidos.

Enquanto isso no Estado, com o fim do governo popular de Olívio Dutra, os trabalhadores e os movimentos sociais voltaram a ser tratados como caso de polícia. A Fecosul já havia enfrentado o governo Britto contra as reformas neoliberais e privatizações, passou pelo governo Rigotto e agora, é a vez de enfrentar o jeito de governar de Yeda. Um governo baseado na corrupção, na agressão da polícia militar aos movimentos sociais, o qual merece repudio e enfrentamento.

Mas ninguém segurou a grande mobilização contra a emenda 3 – que previa o fim das férias, décimo terceiro e da carteira assinada. Caxias do Sul foi o grande palco das mobilizações nacionais que colocou milhares de trabalhadores na rua. Lideradas pelos metalúrgicos, as ações tiveram apoio da Fecosul e participação dos comerciários e outras categorias. Nestes atos, mais uma vez, líderes sindicais foram agredidos e presos pela brigada militar.

Mudança da política salarial das grandes redes de lojas levaram a Fecosul à mobilizações de rua. Depois de várias negociações, sem sucesso, dirigentes de todo o Estado se manifestaram contra a redução dos salários dos trabalhadores das Lojas Colombo. Nesta ação foi, injustificada, a reação da polícia militar contra os dirigentes comerciários em frente ao centro administrativo da empresa em Farroupilha. A intransigência em negociar foi a mesma que mandou bater nos sindicalistas resultando em vários líderes sindicais feridos e três hospitalizados, em abril de 2007.

Neste último período, a Federação não deixou de participar de fatos importantes da vida dos trabalhadores como campanhas salariais, marchas dos sem, dia do trabalhador, atividades específicas de cada sindicato, negociações com lojas, supermercados, farmácias, cooperativas, setor de serviços e muitos outros. Debates com a Superintendência Regional do Trabalho. Enfrentamentos e firmeza nas negociações salariais, sempre na defesa dos direitos dos trabalhadores.

Visitas em sindicatos de todo o Estado, reativação das regionais para uma atuação mais próxima da categoria e pela unidade dos sindicatos. Reorganização de sindicatos que estavam longe da categoria, como Uruguaiana e Canela. A conquista da volta de vários sindicatos que estavam fora da Fecosul, e que retornaram fortalecendo e engrandecendo cada vez mais a luta dos comerciários gaúchos.

Realização de cursos de formação, seminários, encontros e debates sobre os mais diferentes assuntos de interesse da categoria. Com destaque para a luta das mulheres, que embora tenham conquistado espaços importantes ainda enfrentam desigualdades que precisam ser superadas, na vida e no trabalho.

A Fecosul teve participação ativa a nível nacional e estadual da criação da CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil. Uma central Classista, democrática e de luta. Sempre na busca do fortalecimento da luta dos trabalhadores brasileiros.

Assim tem sido, o trabalho da Federação dos Empregados no Comércio de Bens e Serviços do Estado do Rio Grande do Sul, que tem hoje 50 sindicatos filiados. E que este ano de 2008, realizou o maior congressos de sua história, como o maior número de delegados e de sindicatos participantes. Assim como brindou a evolução dos debates e o amadurecimento da categoria que demonstrou a unidade e apresentou chapa unitária sendo eleita pela maioria absoluta dos votos.

A atual diretoria, que tem a frente Guiomar Vidor, e trabalha na perspectiva de que a Fecosul continuará defendendo um sindicalismo classista, democrático e de luta. Tendo em vista a defesa de um projeto nacional de desenvolvimento com democracia e valorização do trabalho, e das categorias comerciaria e de prestação de serviços, através da regulamentação da profissão de comerciário, na luta pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, pelo fim do fator previdenciário e pela aprovação das convenções 151 e 158 da OIT. Pelo avanço das conquistas e melhores condições de trabalho, para que os trabalhadores tenham direito ao descanso, a qualificação, a educação, direito ao esporte, ao lazer, ao culto religioso, ao convívio com a família e com os amigos. Que todos tenham qualidade de vida e desfrutem das riquezas que produzem no dia a dia de seu trabalho.


Créditos:
Pesquisa história até 1984
João Batista Marçal

Pesquisa e entrevista de 1984 até dias atuais
Márcia Carvalho

Realização
Fecosul – Federação dos Empregados no Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul